Atenção: esse texto contém MUITOS spoilers da história da primeira e segunda temporada de 3%, primeira série brasileira original Netflix.

 

O enredo

A segunda temporada começa com o gancho do final deixado pela segunda temporada. Rafael e Michele vão para Maralto, enquanto Joana e Fernando voltam para a sua vida no continente, frustrados com o Processo.

Fernando relutantemente concorda em ajudar garota que está prestes a enfrentar o Processo, como ele no ano anterior. Glória está muito nervosa, e quer passar no Processo de todas as formas. Nos primeiros episódios da série, Fernando e Glória repassam as provas anteriores e ele dá valiosas dicas a ela. Ele acaba se apegando muito a ela.

No terceiro episódio, a primeira fase do processo acontece: o escaneamento. Elisa, médica de Maralto, procura as informações contidas no chip que fica atrás da orelha de todos aqueles que moram no continente. Os organizadores do processo precisam saber quem tem 20 anos, e quem já falhou no Processo.

O chip de Glória não funciona em um primeiro momento. Ela entra em pânico. Sem a confirmação, ela está excluída sem nem tentar. Eventualmente tudo dá certo. Só que a Elisa acaba revelando algo muito importante : “o importante são os dados que estão guardados no Processo; sem eles, a gente não faz nada”. Ou seja, um único ponto de armazenamento de informações vitais – portanto, frágil.

 

Acabar com o Processo

A Causa continua com seus planos para acabar com a injustiça que é o Processo. Sem ver alternativas, e sendo cada vez mais perseguidos e reprimidos, eles decidem por uma medida drástica. Vão explodir o prédio com todos os participantes dentro.

Isso gera muita controvérsia, e alguns membros acreditam que deve haver uma forma melhor de combate. Até que Fernando é quem dá a deixa. Ele conta o que ouviu de Elisa: sem os dados, o Processo não existe. O plano muda para explodir o prédio da base de dados. “Esse é o ponto fraco do Processo”, conclui Fernando.

 

Blockchain e os 3%

O enredo é apenas mais uma narrativa para televisão, com o objetivo de entreter. Só que ela toca em um ponto sensível hoje: a centralidade de informações e de poderes.

Existe um motivo pelo qual bancos cobram tão caro por seus serviços, além de suas margens. O fato de cuidarem do dinheiro de milhões de pessoas os torna alvos certeiros para hacker, que querem desviar parte desses recursos.

Em 2015, uma companhia de cibersegurança russa emitiu um relatório no qual mostrava um sofisticado ataque que roubou mais de US$1 bilhão. A rede ganhava acesso a computadores do banco por esquemas de phishing, e estudava suas operações por meses a fio. Quando sabia o que fazer, usava processos internos do banco para programar ATMs para soltarem grandes quantidades de dinheiro sozinhos. Para o banco, parecia apenas que era um defeito da máquina, e que pessoas sortudas achavam dinheiro em horários aleatórios.

Isso quando não são os dados de clientes que estão ameaçados. Um hacker supostamente obteve informações de mais de 300 mil clientes do Banco Inter, inclusive números de cartão de crédito e de documentos. Não se sabe se a notícia é verdadeira. Contudo, isso já mostra a vulnerabilidade de instituições centrais.

Ainda há os casos de fora do mundo financeiro. Recentemente, o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, teve que depor em Congresso pelo escândalo Cambridge Analytica. Há inclusive suspeitas de uso de dados dos usuários para manipular eleições.

Mesmo organizações que foram feitas para serem seguras, como o caso do Processo em 3%, podem sofrer disso. Um ataque de fora pode praticamente impossível, mas Julian Assange e Edward Snowden mostraram que um ataque de dentro é tão efetivo quanto, ao publicarem documentos ultrassecretos da National Security Agency (NSA) em seu site Wikileaks.

 

A solução blockchain

Nenhum dos ataques acima, reais ou fictícios, seria possível com o blockchain. O Processo estaria absolutamente seguro com uma rede de armazenamento de informações descentralizada. E o blockchain não é nada mais que isso. Todos os computadores que rodam o programa Bitcoin, nódulos, armazenam todas as informações. Não é possível destruir ou hackear o Bitcoin sem destruir a internet.

Essa é a revolução proposta. Um sistema no qual não dependamos de instituições centralizadas para que nossos bens sejam guardados. Hoje, identidades são protegidas por documentos governamentais reconhecidos. O dinheiro é guardado por bancos. Contratos são registrados em cartórios para evitar adulterações. E todas essas soluções são literalmente medievais.

O primeiro passaporte for criado em 1414, pelo Henrique V, na Inglaterra. O banco mais antigo ainda em funcionamento, a Banca Monte dei Paschi di Siena, foi fundado em 1472. Há notícias de cartórios funcionando em Gênova desde o século XII, quase mil anos atrás.

Com o blockchain, a identidade das pessoas pode estar protegida. Um refugiado poderia comprovar sua identidade onde quer que estivesse, usando sua chave privada. Essa mesma pessoa não teria que deixar para trás seus bens – seus Bitcoins ou qualquer outra criptomoeda, estariam com eles em qualquer lugar com acesso à internet. Não se trata de uma perspectiva tão absurda – 86% dos jovens refugiados sírios na Europa possuem um smartphone. Documentos programados em código, os smart contracts, não podem ser modificados por uma das partes sem a autorização da outra. Trata-se de uma verdadeira revolução.

 

Problemas no blockchain

Os casos de falhas de segurança no mundo das criptomoedas também são espetaculares. A corretora Mt. Gox foi forçada para fora do mercado por um ataque ainda em 2011. Recentemente a corretora japonesa Coincheck foi vítima do maior ataque virtual da história. Quase R$1,6 bilhão foi roubado.

Só que isso não prova a falha de segurança do blockchain. Entidades centralizadas é que foram hackeadas, o que só auxilia no argumento anterior. O usuário comum não acessa o blockchain diretamente, já que a independência também envolve riscos. Uma vez perdida a chave privada, por exemplo, não há como recuperar os fundos lá parados – estão perdidos para sempre.

O blockchain em si também possui algumas falhas. No caso do Bitcoin, por exemplo, que trabalha com o sistema proof-of-work, há o risco de um ataque 51%. A rede decide pelo blockchain válido considerando a maior rede, aceita pela maior parte dos usuários. Alguém que detivesse 51% do poder de processamento da rede poderia realizar transações a seu favor sem ser contestado por uma maioria. Em duas ocasiões, há anos, algumas empresas de mineração já estiveram próximas desse número. Voluntariamente decidiram não ultrapassá-lo, por seria o fim da confiança na criptomoeda.

Hoje, esse ataque seria impossível. A rede possui um hash rate (poder de processamento) de mais de 30 milhões de TH/s. Isso são dezenas de bilhões de computadores domésticos – e motivo pelo qual não é mais possível minerar Bitcoin fora de uma instalação apropriada para esse fim.

Além disso, os computadores quânticos são uma ameaça. Sua capacidade de processamento é tão grande que está fora da escala atual, podendo ser até 100 milhões de vezes mais rápidos que os mais rápidos computadores de hoje. Com esse nível de poder de processamento, a chave privada das pessoas poderia ser quebrada.

Contudo, startups de segurança já estão trabalhando em soluções para o blockchain se proteger dessa ameaça. Existem formas de tornar a criptografia tão complexa que é literalmente impossível quebra-la por força bruta.

 

Conclusão

Voltando ao assunto do blockchain e dos 3%, vemos a importância da criação de Satoshi Nakamoto. Gigantes como Marc Andreessen, fundador do Netscape, e Peter Thiel, fundador do PayPal, reconheceram o potencial revolucionário da tecnologia. Com o blockchain, não só o dinheiro, como qualquer ativo, pode ser descentralizado.

Se o Processo usasse o blockchain, estaria seguro. Não importaria o fato de a causa explodir uma de duas bases de dados, pois as informações estariam rodando em uma rede. E assim como o Bitcoin, seria inviolável por ataques cibernéticos. O enredo não ficaria tão interessante, e a Causa provavelmente teria que adotar seu plano original. Contudo, a possibilidade do blockchain e os 3% é atraente.

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Blockchain e os 3%: a história poderia ser outra
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