Muito se fala sobre o bitcoin e sobre como essa moeda virtual pode trazer mudanças significativas para o mercado financeiro em escala mundial. Mas nem todo mundo sabe sobre a tecnologia na qual essa criptomoeda foi construída e, assim, passou a operar. Conhecido como blockchain, ele promete revolucionar o mercado, especialmente porque muitas instituições estão descobrindo outros usos para ele – e que não necessariamente envolve as moedas digitais.

Mas vamos começar pelo começo

Em 2008, quanto Satoshi Nakamoto (conhecido por ser criador do bitcoin, mas que até hoje não se sabe se é um pseudônimo de uma pessoa real ou de um coletivo) liberou pela primeira vez o conceito do que era um bitcoin e como seria possível desenvolvê-lo, também foi apresentado a blockchain. A tecnologia basicamente é um banco de dados que possui como uma de suas principais características o fator descentralização o que, por consequência, também garante segurança e integridade da rede.

Traduzindo ao pé da letra, blockchain significa “cadeia de blocos” e isso diz muito sobre o seu funcionamento. Isso porque, basicamente, todas as informações que são inseridas no sistema são inseridas em blocos que completam essa cadeia, formando o conjunto completo de registros. “Na lógica da blockchain, cada bloco da cadeia correlaciona-se ao bloco anterior e é carimbado com um código, ou hash, permitindo a aceitação e validação do bloco por todos os participantes da rede”, explica João Malaquias, gerente regional da Trend Micro Brasil.

É como se fosse um grande livro-razão, no qual você e outras pessoas que queiram participar do mesmo sistema anotam todas as transações que são realizadas.

A diferença entre um papel e caneta de um livro de contabilidade comum e o sistema digital, no entanto, é grande, mas pode-se resumir na seguinte frase: todos os participantes recebem todo o conteúdo que é inserido no blockchain em tempo real, sintetiza Nathália Nicoletti, sócia da Smartchains, uma startup focada em desenvolver projetos que utilizam a tecnologia.

Dessa forma, uma pessoa pode colocar uma informação ali e ela quase que automaticamente aparece para todos os participantes que estão conectados a aquele banco de dados. Uma vez inserido, o dado não pode ser alterado. “Além de distribuído ele é descentralizado, o que significa que nem eu ou você temos o poder para barrar ou apagar dados”, explica a especialista.

Ou seja, não é preciso um administrador do sistema para que ele funcione. “A blockchain não é um banco de dados convencional e, principalmente, não necessita de um intermediário para suas transações”, aponta Malaquias.

E sim, qualquer pessoa interessada pode integrar esse sistema. “Não existe uma barreira com relação a isso, mas, ao mesmo tempo, a rede possui um mecanismo de bom senso para averiguar se você está trabalhando de boa-fé”, complementa.

“Todos têm o mesmo poder, é bem democrático”, diz Nathália, afirmando também que essa infraestrutura é especialmente no caso de algum colaborador deixar a roda. “Se algum participante sair, a informação não se perde.”

Em resumo: “essa é a ideia central do blockchain público”, afirma Nathália.

Distribuição inteligente

Por conta dessas características de distribuição, descentralização e segurança, o blockchain começou a chamar a atenção de empresas que começaram a explorar a tecnologia para uso corporativo.

Sendo para uso privado, a rede não poderia, portanto, estar pública como acontece com a tecnologia pura, em que qualquer pessoa interessada pode contribuir. Então algumas coisas tiveram de ser adaptadas e criou-se, assim, uma variação da blockchain pura, que é conhecida por muitos como blockchain permissionada, ou privada.

Com isso, ganhou-se a possibilidade de realizar algumas customizações, como integrar à cadeia apenas participantes autorizados, abrindo para a realização de configurações que na blockchain original não são possíveis. “Posso delimitar papel das pessoas que participam dessa rede, por exemplo, para realizar transações específicas. É possível configurar janelas para participantes enxergarem apenas o que eu quero que eles vejam”, explica Nathália.

Usos corporativos

Muito sobre como o banco de dados poderia revolucionar o sistema tradicional bancário. Malaquias aponta, por exemplo, que o uso da blockchain nesse sentido poderia ser utilizado de diversas formas como “liquidação de operações no mercado financeiro; pagamentos cross-border (banco nacional – investidor estrangeiro); armazenamento de documentos e contratos; rastreamento de transações; pagamentos com pessoas que não dispõem de conta bancária”, lista. “Pelo fato da blockchain ser uma inovação disruptiva, cuja adoção tem sido crescente no mundo, a tendência é que esta tecnologia seja uma promessa com potencial para uso no mercado financeiro. Uma vez que ela é um excelente recurso para otimizar serviços e garantir o potencial competitivo das instituições financeiras.”

Já Nathália comenta que a aplicação para o mundo corporativo é bastante ampla, e que vai para além do mercado das finanças. Na cadeia de produção de carne, por exemplo, é possível ter diversos participantes como produtores, distribuidores, frigoríficos, e cada participante coloca um tipo de dado.

Dados estratégicos, como pedigree de cada animal, por exemplo, não precisam ficar disponível para todos da rede, comenta Nathália. Outra vantagem que a tecnologia permite, por exemplo, “é o rastreamento de recursos que transitam desde fornecedores e fábricas por meio de linhas de transmissão/transporte até a chegada ao consumidor final”, exemplifica Malaquias.

Empresas de petróleo e gás, que possuem extremo rigor no controle de dados a ser compartilhados, bem como o setor de administração pública, entre outros, também veem grande valor no uso de blockchain. Nesse último setor, em especial, a tecnologia poderia ser interessante no sentido de promover a fiscalização de orçamento público, por exemplo, ou mesmo auditoria de votos em eleições.

“[O sistema] distribui da mesma maneira que acontece com o bitcoin. Também há criptografia bloco a bloco. O que difere é que posso escolher quem entra na minha rede e não há consenso de mineração ou remuneração pelo dado colocado na cadeia”, diz Nathália.

Dentre as vantagens do uso da tecnologia de forma privada está, em especial, a velocidade – algo apontado por Malaquias como um dos principais desafios quando o assunto é uso da blockchain por empresas. “Resolução de desafios, como agilidade na velocidade de transações, em que há o processo de verificação e limite de dados, será crucial para tornar a blockchain uma tecnologia amplamente aplicável”, comenta.

Lembrando que, quando pública, a rede se aproveita do poder computacional de todos que a utilizam para usá-la como base de funcionamento. E isso faz com que transações demorem a acontecer em muitos casos.

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