China regula ICOs e preço do Bitcoin cai com rumores sobre banimento de criptomoedas

Boomberg e Wall Street Journal divulgaram relatórios no último dia 7 de setembro que o Banco Popular da China tem planos de restringir ou mesmo proibir a transação de Bitcoin no país, mas a indústria do Bitcoin acredita que isso é impossível.

A Caixin, uma empresa de mídia estatal chinesa com boas fontes dentro do governo, também divulgou restrições que o governo teria, embora o relato tenha mais elementos regulatórios do que, de fato, de proibir as exchanges de funcionar no país.

Com isso, os rumores ganharam manchetes, mas os fatos até agora apontam em uma direção menos radical e muito mais segura em relação às criptomoedas.

Os rumores apontavam para restrições nas exchanges, e não nas transações de pessoa para pessoa.

As principais exchanges do país, que seriam afetadas, negam que tenham recebido qualquer notificação e, mais que isso, que tenham qualquer preocupação quanto a algo desse tipo de ação do governo chinês, que é conhecido por seu intervencionismo na economia. O que o governo chinês tem feito é agir com cautela em um mercado que está aquecido.

O impacto desse relatório, divulgado no dia 8 de setembro pela Caixin, foi sentido. O valor do Bitcoin sofreu uma queda nas horas seguintes, mas a tendência não durou muito. Com isso, o preço do Bitcoin caiu para a região de US$ 4.000.

Nesta segunda-feira (11/Set/2017), o Bitcoin recuperou o seu valor para algo em torno de U$ 4.200, com um alto número de transações na China. Em um único dia, o preço no mercado chinês de câmbio aumentou 9,3%, diferente do que aconteceu em outros mercados importantes, como Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos, que permaneceram estagnados.

Desde o começo, muita gente desconfiou dos relatos, incluindo Bobby Lee, membro da diretoria da BTC Foundation. Ele publicou uma enquete no Twitter sobre a notícia do banimento da China e perguntou aos seus seguidores: verdade ou fake news? Mais de 80% responderam pela segunda opção.

Seria, então, um caso de fake news?

A desconfiança quanto ao banimento é justificada, embora seja claro que o governo chinês quer regular o mercado de criptomoeadas – algo até esperado em um governo que faz regulações estritas na economia.

Segundo o relatório da Caixin, autoridades do governo acreditam que as moedas digitais, como o Bitcoin, estão se tornando “cúmplices” de “todos os tipos de atividades criminosas”. Mais do que isso, diz que as moedas virtuais “facilitam atividades como lavagem de dinheiro e financiamento terrorista”.

Esse tipo de acusação é muito usada por críticos do Bitcoin, inclusive dentro de governos que desconfiam das criptomoedas, mas há pouca sustentação para isso. Na verdade, é mais uma forma de justificar a ideia de pisar no freio e a regulamentação do mercado e evitar a criação de bolhas que representem um risco à economia chinesa, ao menos na visão do governo.

Um relatório da Royal United Services Institute (RUSI), uma think tannk britânica, diz que há um grande exagero quando se fala sobre o uso de criptomoedas para financiamento de atividades ilícitas. “Tratar criptomoedas como uma ameaça excepcional cria a impressão errada que produtos financeiros mais convencionais não são igualmente ou mais, vulneráveis à exploração terrorista”, afirma David Carlisle no documento.

O relatório vai além. “Criptomoedas não são necessariamente fortalezas impenetráveis de segredos. Com o Bitcoin, de longe a criptomoeda mais usada e que depende de um registro público, o Blockchain, para registrar as transações, as autoridades têm um grande número de métodos para descobrir atividades ilícitas”, afirmou ainda Carlisle.

Esse tipo de acusação, portanto, parece pouco provável que seja, de fato, um motivador para os governos. Há outros que podem ser mais palpáveis.

Há, sim, uma ideia do Banco Popular da China de regulamentar o mercado de criptomoedas. É um desejo que não fica só na China, já que outros grandes governos pensam em regular esse mercado já há algum tempo.

A China, porém, é um país de alto controle governamental da economia e, por isso, tem sido um dos mercados onde há mais especulação sobre os processos regulatórios. Mas banir as exchanges seria um passo muito além de processos regulatórios.

Regulação em ICOs

No início de setembro, o banco central chinês proibiu todos os ICOs (Initial Coin Offering, Oferta Inicial de Moeda). O princípio de uma ICO é o mesmo de uma IPO Initial Public Offer, Oferta Pública Inicial), que é quando uma empresa abre suas ações na bolsa. A ideia das ICOs é financiar criptomoedas.

Isso significa que alguém oferece aos investidores algumas unidades de uma nova moeda em troca de uma criptomoeda já existente, normalmente Bitcoin ou Ethereum. Para o Banco Popular da China, esse tipo de iniciativa “perturbou seriamente a ordem econômica e financeira”.

Informações da Yicai, citando um relatório oficial, estimam que foram investidos cerca de 2,6 bilhões de Yuan, algo em torno de US$ 400 milhões, em ICOs.

A publicação do Banco Popular da China diz, textualmente: “Na data deste anúncio, todos os tipos de atividades de financiamento de emissão de token cessarão imediatamente. As organizações e indivíduos que completaram o financiamento de tokens devem providenciar o repatriamento e assim por diante, protegendo os interesses e lidando adequadamente com os riscos”.

Os governos têm motivos para querer regular as criptomoedas,de forma a inseri-las na economia do país, como já se discute em diversos países, mas os rumores sobre a proibição recaíam em motivos que carecem de provas.

A regulação, porém, não é vista como um obstáculo para as criptomoeadas. Algumas exchanges inclusive que a proibição de ICOs na China fortalece as moedas digitais, dando ainda mais segurança não só aos usuários, mas ao mercado, que terá apenas empresas legítimas que vendam tokens.

Regulamentação é uma constante na China

Desde 2016, o Banco Popular da China já fez vários processos de regulação para as exchanges chinesas, que se adequaram e seguem os regulamentos normalmente.

O fato de haver processos regulatórios, inclusive em relação a ICOs, não quer dizer que haja planos de proibir, muito pelo contrário.

Os processos regulatórios indicam justamente o contrário. Se a ideia fosse proibir exchanges e transações em Bitcoin, não havia sentido em tentar regulá-las.

A informação inicialmente divulgada traz algumas inconsistências. Enquanto uma fonte disse ao WSJ que a decisão já foi tomada, outra diz que o processo levaria “vários meses”.

Se discute sobre regulação, mas o banimento parece improvável e se trata mais de regulamentar um mercado gigantesco em um mercado que oferece muitos riscos.

Em um mercado tão grande, algo com pouca regulação oferece riscos por movimentar muito dinheiro, muito rápido e com grandes chances de acidentes que podem causar danos sérios. Por isso, o governo chinês prefere fazer medidas restritivas para evitar problemas maiores.

Assim, é possível que as restrições que o governo impõe não sejam uma ameaça ao mercado de criptomoedas e, mais do que isso, sejam temporárias, com objetivo de desacelerar com riscos.

Um mercado poderoso

Cerca de 23% das transações de Bitcoin acontecem na China e, por isso, os rumores da última semana causaram preocupação.

O Banco Popular da China já fez testes com um protótipo de criptomoeda que desenvolveu e, por isso, mesmo com as restrições do governo socialista chinês, é improvável que haja um banimento, como se especulou.

O mercado já reagiu depois dos rumores e as movimentações de Bitcoin na China foram altas no início dessa semana.

Alguns analistas afirmam que as transações na China devem continuar acontecendo normalmente, mas em um processo um pouco mais tempo e com um risco maior.

O que se vê pela movimentação de Bitcoin e a reação da comunidade é que os rumores parecem mais um erro de interpretação do que de fato riscos do governo chinês banir a criptomoedas.

A China vai mesmo banir o Bitcoin?
5 (6 votos)