A goblockchain.io tem um projeto muito interessante de descentralizar o ensino usando uma plataforma blockchain. Para qualquer um que tenha interesse em aprender a desenvolver aplicações no blockchain, este é o site.

A equipe do Bitcoin Brasil conversou com Renan Pitz Alves, arquiteto e co-fundador da plataforma, que nos contou melhor como funciona a GoBlockchain.

 

Bitcoin Brasil – Como surgiu a ideia de construir uma plataforma de ensino descentralizada?

Renan Alves – Durante um curso de desenvolvimento em blockchain conheci um dos outros co-fundadores, o Henrique Leite. Conversando, percebemos como o ensino do tema é escasso do ponto de vista da programação. Nossas primeiras tentativas de ensino mostraram que há interesse, mas muitos não sabem o que é; e mesmo quem está no meio de programação não conhece a possibilidade de trabalhar com blockchain. Assim, nos juntamos com a Glaucia Rangel para formar uma plataforma que conecta quem quer aprender e quem quer ensinar. No meio de todo esse processo, pensamos que seria possível usar o próprio blockchain para descentralizar o ensino, e criar uma plataforma totalmente descentralizada, na qual toda a comunidade participa e não há uma diretoria centralizadora.

 

Como funciona uma empresa sem administração central?

Isso quer dizer que qualquer pessoa pode participar, desde que tenha os requisitos para as tarefas que precisam ser feitas. As tarefas são coordenadas por um Trello público, e é só escolher com quais gostaria de contribuir. Elas podem ser realizadas individualmente ou em grupo, e ao realiza-las o colaborador ganha pontos, atribuídos pelo Conselho Gestor.

Outras informações também são completamente transparentes. Por exemplo, a conta corrente é uma wallet de criptomoedas, cujo saldo é público. Além disso, todos podem ver no que o dinheiro foi gasto e quais as fontes de receita da empresa. Atualmente cobramos 15% da receita de cada curso, sendo tudo reinvestido na própria plataforma.

As operações serão todas regidas por contratos inteligentes. Assim, muito da operação será completamente automatizada no futuro. Por exemplo, os professores têm uma meta de ficar com uma nota maior do que 4 – de uma escala de 5 – nos cursos que ministram. Caso a nota seja menor, ele não recebe todo o valor do curso.

 

O que são esses pontos? O que o colaborador ganha ao ajudar?

Os pontos dão direito ao colaborador de votar. Para participar das decisões da empresa é preciso contribuir ativamente com o seu crescimento.

Além disso, os votos permitem dois outros benefícios: descontos no curso – que tentamos limitar a 10% ou 20% para não prejudicar os professores – e acesso ao Conselho Diretivo.

Além dos pontos, o colaborador também ganha reconhecimento. Por exemplo, é possível, ao juntar certo número deles, ter sua foto colocada no website principal.

Parece que as pessoas estão respondendo bem à proposta. Já temos desde programadores até advogados no time. O site acabou de entrar em produção e foi construído de maneira colaborativa.

 

Qual a função do Conselho Diretivo?

No Conselho são tomadas as decisões com mais impacto. Por exemplo, que eventos participar ou realizar, e o rumo da plataforma. Começamos com os 3 fundadores, e hoje já são 5 pessoas. Além disso, o Conselho deve representar sempre pelo menos 10% do total de colaboradores, o que mostra nosso comprometimento para criar uma empresa em que todos possam participar.

 

Por enquanto esse projeto é apenas realizado por voluntários, inclusive os fundadores. Existem planos para profissionalizar?

Quando começamos, muita gente viu isso como um case interessante, e vieram pedir consultoria em blockchain. Então separamos a empresa em duas partes: a de educação e a de consultoria, que nunca se misturarão, pois as propostas são diferentes.

Pela empresa de consultoria, prestamos assessoria para empresas e outras pessoas, e somos remunerados por isso. Contudo, isso é um projetos dos fundadores, e é separado da GoBlockchain.

Todo o trabalho na GoBlockchain é completamente voluntário, e ninguém nunca receberá diretamente o dinheiro dos lucros que possam vir a ocorrer. Uma ideia que estamos avaliando é realizar um ICO no futuro, também sem objetivo de lucro. Mas isso nos permitiria remunerar os colaboradores com dinheiro, e não apenas em pontos. A plataforma será sempre livre e descentralizada, então a colaboração profissional dos sócios ou de qualquer pessoa não está nos planos.

 

Quais os principais desafios enfrentados por uma organização descentralizada?

No momento, a maior dificuldade não é humana e sim técnica. Elaborar os contratos que irão reger a organização está se provando um desafio, já que os materiais de apoio são escassos e difíceis de estudar. Ou seja, processos que pretendemos automatizar ainda são feitos manualmente.

Por exemplo, a questão de os professores não ganharem toda a remuneração caso não atinjam a nota mínima de 4 é hoje feita por um formulário enviado aos estudantes ao final do curso. Implementar o contrato inteligente que irá reger essa relação é difícil do ponto de vista técnico. Não existem modelos em sites especializados, como o GitHub, e temos que criar tudo do zero.

Quanto à parte humana, o maior desafio é manter os colaboradores motivados. Temos que constantemente nos puxar e nos lembrarmos do objetivo de construir uma plataforma descentralizada, algo que seria único no Brasil. Contudo, não temos problemas com conflitos de equipe, como se poderia esperar.

Qualquer conflito de ideias é resolvido por votação. Ou seja, todos devem seguir o que a maioria decide, e isso acaba com várias das discussões que poderiam acontecer. Houve a oportunidade de discussão, e todos estão participando da direção do projeto. Os votos levam em consideração os pontos, ou seja, a contribuição de cada um, e os votos de Conselheiros têm um peso maior.

 

O futuro das organizações está na descentralização?

Acredito que haja muito espaço para decisões compartilhadas dentro das empresas sim. Isso faria com que os colaboradores se sentissem mais parte do rumo da empresa, e pode funcionar até mesmo em grandes multinacionais. A visão dos funcionários que estão em contato direto com as suas tarefas pode trazer uma claridade maior para os chefes. Mas não acredito que todas as decisões em todas as empresas possam ser descentralizadas, e algumas decisões estratégicas devem ser tomadas por grupos de pessoas.