Mercado Bitcoin patrocinando a Bitcoin 2014

Em maio de 2013 embarquei para San Jose, no Vale do Silício, para a primeira conferência de Bitcoins organizada pela recém-criada Bitcoin Foundation. Naqueles dias meu amigo da época de USP, o Gustavo, e eu havíamos acabado de sacramentar a compra do Mercado Bitcoin. Éramos vistos como doidos ou irresponsáveis, dada a quantia de dinheiro em que comprometemos em um negócio de risco tão alto. Mas esta não foi uma decisão impensada, desde 2012 vínhamos estudando o potencial da tecnologia.

Não me lembro exatamente da primeira vez em que ouvi falar de Bitcoin. Praticamente simultaneamente, li uma reportagem da revista Superinteressante falando de uma nova moeda e um estagiário do banco em que eu trabalhava contava para todos que quisessem ouvir a respeito das loucuras da mineração de moedas virtuais. O ponto é que estudá-la virou um passatempo, e o passatempo passou a ser meus estudos, meu trabalho e minha paixão.

Exatamente um ano após aquela viagem e a compra do Mercado Bitcoin, novamente tomei um avião, desta vez na companhia do Gustavo, e fomos para Amsterdam, palco da Bitcoin 2014. O segundo evento organizado pela Bitcoin Foundation.

Este intervalo de um ano entre um conferência e outra foi com certeza o ano mais intenso de nossas vidas. Além de tocarmos empregos paralelos durante a maior parte do tempo, tivemos a loucura dos chineses comprando Bitcoins como se não houvesse amanhã no final de 2013, o que pediu noites em claro e a contratação de um time e de uma sede para a empresa em um fim de semana. Trabalho que consumiu até a última gota de energia do Gustavo, que no final contratou pessoas de quem tenho orgulho. Houve também uma série de altos e baixos, explicações para autoridades, clientes compreensivos e outros menos, palestras por todo o planeta e toda sorte de problema e de solução. Sem contar que neste intervalo o Gustavo tornou-se um dos nadadores mais rápidos do Brasil aos trinta e poucos anos após uma década sem treinar. Neste tempo, eu me tornei pai.

Nossa empresa tornou-se a maior bolsa de moedas virtuais da América latina, com a maior comunidade ativa no Facebook no planeta. Dois novos sócios subiram à bordo, o Maurício e Marcos, chegamos a operar quase 20 milhões de reais em dois meses e pagamos os impostos sobre cada centavo. Fomos reconhecidos pela mídia nacional e mundial, chegando a ter uma matéria sobre nós na Bloomberg, uma das maiores empresas de informações financeiras do mundo. Foram 12 meses bem intensos.

Bom, agora que falei demais, chegamos em 2014, a Amsterdam.

A conferência foi de uma organização impressionante, e boa parte do que foi feito estava sob liderança de uma brasileira, a Fernanda. Ela devia ter sido chamada para por ordem na Copa, ou nas Olimpíadas. As discussões e palestras aconteciam em quatro salas ao mesmo tempo. A Foundation prometou colocar todos os vídeos no canal dela no youtube, no endereço: https://www.youtube.com/user/BitcoinFoundation

Falando sobre minhas impressões, a primeira coisa a se notar é que o ambiente da conferência comparado à 2013 foi completamente outro. Em 2013 me senti em uma woodstook geek. Éramos todos nerds, discutindo como levar a tecnologia das moedas virtuais para as pessoas, discutindo mineração e aproveitando o tempo livre para ir comprar bonecos do Darth Vader na vizinhança.

A de 2014 foi completamente diferente. O que vou dizer aqui desagrada a muitos, mas o Bitcoin virou um negócio. Um negócio que já movimenta muitos milhões, está no caminho dos vários bilhões e já há quem diga que é um universo trilhonário.  Universo esse que já conta com o interesse dos governos das principais nações do planeta que neste momento estão  pensando em como encaixar essa nova tecnologia nas leis com que eles estão acostumados. Além dos nerds da conferência anterior, esta contou com a presença de várias figuras desta nova realidade. Muitos foram os fundos de investimentos, grandes empresas,  advogados e reguladores presentes. A fase da inocência acabou, e com ela foram embora figuras famosas do início do Bitcoin como a Mt-Gox, o Charlie Schrem, o Silk Road e mesmo a Apple fugiu de nós, proibindo carteira de Bitcoin na Apple Store (por favor, se você tem um iPhone, troque por um Android). Empresas iniciantes em 2013 como o Bitpay de pagamentos, a Lamassu, fabricante de caixas de Bitcoins e a KNC de equipamentos de mineração tornaram-se grandes empresas.

Nós também crescemos e nos tornamos um dos patrocinadores do evento. Também palestramos a respeito do mercado latino americano e brasileiro. Confesso que nada disso passou por minha cabeça lá em 2013.

E o Bitcoin?

Posso afirmar que, se tínhamos alguma dúvida, agora não há mais. O Bitcoin veio para ficar. Neste último ano a tecnologia passou por diversas provas e sobreviveu a todas. Ainda estamos no começo e há questões a serem melhoradas, como torná-la acessível ao cidadão médio, com pouco interesse ou traquejo tecnológico. Mas está claro que criou-se ao mesmo tempo uma nova área de estudos das Ciências da Computação, da Economia e mesmo da sociologia.  Agora, além ser possível interagir com qualquer pessoa do mundo de forma instantânea, é possível também transferir valores, a custo baixíssimo, de maneira imediata, e isto muda tudo. Agora é possível pagar um professor de inglês na Austrália sem nenhum intermediário. É possível a carros que se auto dirigem pararem em um posto de gasolina, se abasteçam e paguem a própria conta.  É possível que robôs negociem uns com os outros. E tudo isso ficou claro neste último ano.

Agora resta a nós e todos que queiram empreender, criar as condições para que o Brasil seja um dos destaques na conferência de 2015. As moedas virtuais são uma tecnologia em que o fato de estar no Brasil não atrapalha e pode até ajudar novos empreendedores. É uma oportunidade como poucas na história. Ninguém pediu, mas fica meu conselho a quem quer empreender: estude o Bitcoin, estude as novas tecnologias que surgem dele como o Ethereum,  Side Chains, Dark Coin, Litecoin e meta a cara. Vão te chamar de doido, mas as chances de estar em Maio de 2015 em algum lugar do planeta discutindo os rumos das moedas virtuais é muito alta.

Painel Global Pioneers in Bitcoin – Bobby Lee (Moderador, BTC China), Zane Tackett (OK Coin), Meni Rosenfeld (Israeli Bitcoin Assoc), John Karanja (Whive.org), Rodrigo Batista (Mercadobitcoin.com.br), Steve Beauregard (Go Coin)